quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Fé e Cura 2

Mais uma parte do nosso projeto "FÉ E CURA NAS RELIGIÕES", para a cadeira de Introdução à Antropologia. Primeiro Semestre do Curso de História na UECE.

OPINIÃO MÉDICA
(por Arimatéia Moura Filho em 19/08/09)

“... você precisa ter fé em alguma coisa...”
Dr. Mairton de Lucena

O Dr. Mairton de Lucena, neurocirurgião, foi convidado pelo centro de Biomedicina da UECE, no dia 19/08, para ministrar uma aula, e nos cedeu alguns minutos para esta entrevista. Ele é católico apostólico romano, foi seminarista antes de mudar para a área médica e surpreendeu bastante em suas respostas. A fé cura? Perguntei. “Não”, foi convicto, “a fé pode ajudar em outras coisas, mas curar não” disse que a fé é importante para dar rumo, esperança. O que seria fé, na sua concepção pessoal? A resposta foi uma citação de Richard Dawkins, autor de ‘Deus, um delírio’: “A fé é a convicção que se tem sobre coisas que não se vê”. Falei sobre a rezadeira que foi entrevistada pela equipe, sobre a sua prática clínica e perguntei a opinião dele quanto a isso; afirmou respeitar a ação dessas pessoas que agem da forma como culturalmente foram ensinadas, e lembrou o exemplo dos índios, que também não tinham faculdade de medicina, mas atuavam no trato das doenças. Falou ainda que essa suposta mediunidade pode estar alicerçada na própria experiência de vida dessas pessoas, quando ouvem falar que remédio ‘x’ ou planta ‘y’ dá certo pra amenizar dor ou mal-estar. E disse que não acreditava em cirurgias espirituais. Perguntei se na hora de um procedimento médico de risco entrava a fé, ou se apenas o conhecimento cientifico era válido, ele disse que a fé era algo válido sim “...você precisar ter fé em alguma coisa...” algo que não lhe faça perder as expectativas mesmo quando elas já são humanamente esvaídas. Enfim, foi rápido, mas foi interessante. Redigindo essa entrevista concluo que a relação da fé com a medicina pode ser mais intrínseca do que aparentemente se vê, já que os pacientes, por menos crentes que sejam, depositam alguma ‘quantidade’ de fé na ação humana dos médicos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Fé e Cura

Isto é parte do Projeto desenvolvido pela minha equipe na cadeira de INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA, primeiro semestre de História na UECE. O tema Fé e Cura Nas Religiões: Um Estudo sobre Católicos, Protestantes e Espíritas.


A REZADEIRA
(por Arimatéia Moura Filho em 16/08/09)

“... é importante ter fé. É a fé!”

Dona Fransquinha, rezadeira


Residente na rua Nossa Senhora das Graças, no Pirambu, a dona Francisca Moura de Melo (D. Fransquinha), de 56 anos, é rezadeira desde os 20. A entrevista foi muito agradável. Ela, que já foi visitada por outras equipes para falar sobre a ação histórica das parteiras no bairro, foi ouvida pela primeira vez como ‘curandeira’ por pesquisadores. A prática da ‘reza’ foi adjetivada por ela como ‘dom’, afirmando ainda que essa ‘mediunidade’ (palavra do seu vocabulário) foi algo com o qual já nasceu. Perguntada sobre sua iniciação na atividade, respondeu que aprendeu com a mãe, e que a fé tem muito poder ainda mais se tratando de coisas como ‘quebrante’, ‘cobreiro’, ‘mau-olhado’, coisas que tem um efeito real, segundo a entrevistada. Sobre a influência do rezador no processo de cura por meio da fé, D. Fransquinha disse que quem faz o ‘milagre’ é Deus, não ela, “...é importante ter fé. É a fé!”, disse. Ela também comentou que, dependendo do caso, faz jejuns: “eu tomo só o meu cafezinho de manhã...”, passando o dia nessa ‘consagração’ em favor do ‘paciente’. Perguntada sobre prescrição ou receita de alguma substância que influencie nesses rituais, ela falou sobre garrafadas, lambedores, chás, compressas geladas/quentes, e afirmou que não tinham nenhum significado espiritual, eram remédios do mato. “Antigamente a gente não tinha médico, não, era tudo remédio do mato mesmo.” Sobre o misticismo dos rituais, D. Fransquinha citou a utilização de ‘banhos de descarrego’ e dos ‘ramos’, que ela passa em caso inveja, o que, como ela disse, é algo terrível “... você sabe o que é inveja...?! Tranca tudo quanto é de caminho, meu filho...” Essa senhora de 56 anos diz que é variadíssimo o perfil dos seus atendidos, “homem, mulher, menino, gato, cachorro e até pé-de-planta”. No meio da conversa D. Fransquinha fez como se estivesse rezando pela minha saúde, e notei que ela rogou “pela força do sol, pelo poder dos astros, pelo mar sagrado” além “do Divino Espírito, da Virgem Maria, dos doze discípulos de Jesus...” e disse que depois de rezar passa o tratamento. Perguntada sobre a especificidade dos métodos, de onde vinha a certeza sobre o que receitar, ela disse: “não sei, vem aqui no meu ‘sentido’...”. Ela relatou inclusive que prescreve medicamentos da farmácia, eu perguntei de onde vinha aquele conhecimento e a resposta foi a mesma “... meu filho, vem no meu ‘sentido’...”, afirmou não saber mesmo ler nem escrever. Perguntada sobre a medicina tradicional, classificou-a como importante, por haverem casos onde só a reza não resolve. E Questionada sobre a sua visão quanto a si mesma, se ela se enxergava como uma agente cultural, religiosa, ou médica, disse que “o dom é da religião, mas é na saúde”. O interessante na conversa com a D. Fransquinha foi a citação inusitada dos nomes “Alan Kardete” (como ela chamou) e do “Dr. Bezerra de Menezes”. Perguntada sobre os dois personagens históricos relacionados ao espiritismo, falou que eram dois ‘espíritos bons’ que ajudavam no que fazer quanto às curas, mas certificou nunca ter entrado em um centro espírita. A mistura de elementos do espiritismo, com a crença na força da natureza e os equívocos em passagens bíblicas, junto à praticas próximas às da umbanda dão o aspecto sincrético à atividade das rezadeiras, como a Dona Frasquinha do Pirambu.


quarta-feira, 24 de junho de 2009

Parafraseando: História

Tudo é História porque tudo tem história - ou mesmo que não tenha uma História, tem historicidade. Todo passado tem presente - isto que foi construído, aparentemente, em cima daquilo - e todo presente tem passado - aquilo que vai servir de base pra outro aquilo -, "o Presente é formado por vários Agoras". E há também os Aquis, que formam os Agoras, os quais, juntos a outros Agoras, formam o Presente. Esses, os Agoras, são penosamente selecionados de acordo com quem historia afim de passar para o futuro apenas a imagem do Aqui desejado.
Tendo isso em vista, pensemos, pois: quem disse que o que foi, foi mesmo como dizem que foi?! "Quem disse?" Muito bom! Analisar 'quem disse' é um bom princípio. O próximo passo é pensar os interesses de 'quem disse' com aquilo que foi dito, e então chegar à conclusão de que talvez nada seja mesmo História - porque tudo tem história - ou, mesmo que seja história, pelo menos não é algo absoluto - afinal tem sempre outras histórias por trás que podem recontá-la, aprimorá-la, negá-la. Então, nada é História, porque tudo é história. E os homens... os homens, além de personagens, não passam de contadores de estórias, contadores da sua Estória. Que é real, claro, de acordo com a óptica usada para percebê-la, para quem usa essa óptica; mas que não deixa de ser questionável por quem usa outro ângulo de visão. Arte de contar o que foi vivido ou Ciência de tentar recompor o que foi vivido? História é isso, indefinível em sua própria essência, essencial em sua indefinição própria.

Arimatéia Moura Filho
Fortaleza, 24 de junho de 2009

quinta-feira, 9 de abril de 2009

QUERO

"Todo dia ela faz tudo sempre igual..."
Chico Buarque - Cotidiano

TEXTO
QUERO

- O moço vai querer mais alguma coisa?

Vou, pensei, vou querer todo o resto, tudo o que ainda não tenho, filhos, uma árvore, poderes mágicos, um cachorro, tudo mesmo! É isso... vou levar, por favor, embala pra viagem. Ah... viajar, quero mesmo sair por ai e quero que você venha comigo pra me ajudar, pode ser que eu precise de alguém pra carregar - pra eu carregar ou pra me carregar - e pode ser que eu nem precise, mas vou levar mesmo assim. Aliás, eu quero mais, além daquilo tudo que ainda não tenho, quero tudo aquilo que eu não posso ter porque não me deixam ter, mas - pssii... - vou querer segredo quanto a isso. Quero que o tempo volte, quero que o tempo pare. Quero tempo! E quero aprender a tocar piano, a pilotar avião, a fazer café. Quero casar e ver meus filhos, meus netos e bisnetos. Tudo o que eu puder, com os olhos fechados, ver, quero, e quero sonhar de olhos abertos também. Com os olhos abertos...

- Moço?! Moço...
- Hum... ah. Não, eu não vou querer mais nada, viu, obrigado.
- Ei, moço, o seu troco!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

TEXTO

DOIS MIL E...

- Faltam oito dias para acabar o ano...
- Sério? Pensei que já tivesse acabado! É Por isso, então, que eu não conseguia lembrar das festas, dos presentes, dos fogos...

- Passou rápido esse ano.
- E o próximo vai passar mais ainda!
- Como você sabe?
(É dessa forma que acontece, o ano que chega sempre é mais rápido do que o que passou, e assim vai, até que não haja mais anos, só dias, horas, minutos, segundos e ai acaba. Fúnebre? Depende de quais sejam as suas expectativas para depois que acabar. Acaba mesmo? Acaba! Mãe, disseram na TV que o mundo ia acabar! Bobagem, meu filho. Mãe, como vai ser quando o mundo acabar? Não sei, meu filho, teria que ter acabado alguma vez para que eu soubesse e então lhe respondesse. Mãe...! Durma, meu filho. Era bom quando eu era criança, mas os anos foram passando cada vez mais rápido e eu logo me tornei adulto, daqui a alguns dias eu estarei velho, e de lá a alguns segundos pode ser que acabe, que eu acabe.]
- Responde, como é que você sabe... Está pensando em que?
- Esquece... Olha, o sol está se pondo! O pôr-do-sol é tão...
- Tão o que?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Canta Passarinho

"Eu já nem lembro 'pronde' mesmo que eu vou/ Mas vou até o fim..."
(Até O Fim - Chico Buarque)


TEXTO
CANTA PASSARINHO!

Um Pássaro pousou na janela do meu quarto hoje, tranqüilo pousou ali, cantou, passou um tempo e depois voou. Qual seria a angústia de um Pássaro, desses que vivem soltos? Sim, pois a angústia não é - definitivamente não é - algo só dos homens. Da mesma janela, onde vi o Pássaro, vejo, por trás do Pé-de-Jambo que há no meu quintal, uma cadela que é angustiada - a Cadela da Vizinha de trás é angustiada - acho que é por conta da corrente que limita o seu espaço ou mesmo por conta da Criança da Casa, que cresceu e não lhe dá mais atenção.
Não vejo nada nesses pássaros silvestres livres que demonstre angústia, por isso concluo que eles não a sentem. Mas, pensando bem, é totalmente possível fingir que não se sente o que se está sentindo. Quer dizer que os pássaros mentem! Ou, talvez, só não consigam expressar o que sentem... Coitados dos pássaros! O seu coraçãozinho, que é tão tetracavitário quanto o nosso, tendo que suportar angústias que nós logo fazemos por onde externar para não sermos sufocados por elas!
Como diria o pensador - qual era mesmo o nome? Aristóteles, Aristarco, Arimatéia... é uma coisa assim - Para quem quer que seja, nada é mais angustiante que não poder externar sua angústia. Os pássaros cantam, mesmo quando queriam gritar, chorar, bater. Eles só cantam. E aquele Pássaro era angustiado acho que por isso. Quando ele pulou da minha janela, foi gastar o céu num vôo sedoso e solitário. O que levaria alguém a gastar o infinito, que o ilimita, assim sozinho?
DICA
Contando Machado de Assis
O Pojeto EnCENAção de dezembro inicia hoje, 5, e vai até o dia 7. Sempre às 20h, no Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, será apresentado o espetáculo CONTANDO MACHADO DE ASSIS que traz à cena os contos Missa do Galo e Mariana entrelaçados por partes de Dom Casmurro. O
acesso é livre, mediante apresentação de senhas distribuídas 1 hora antes do espetáculo. A gente se vê por lá! Um cheiro.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Apartamento

"Il faut oublier, tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà"
(Jacques Brel)

TEXTO
APARTAMENTO
Gerard, diz que você não quis dizer o que disse, diz. Olha para mim, amor... Fala que ainda me ama, repete aquele galanteio que eu adoro 'Simone, mon amour...' Ei, olha para mim por favor, lembra daquele dia, o nosso dia? Ficamos aqui sozinhos a tarde toda enquanto lá fora chovia, eu adorei ficar assim com você. Gerard, olha para mim!!! O que foi que aconteceu? Ou quem foi que... Chega. Eu já entendi...
Como é que você faz uma coisa dessas comigo? Depois de tantos anos vivendo à sua disposição, em sua função. Depois de eu passar a depender organicamente de você, Gerard! Cafageste! Vai embora, vai. Era tudo mentira, não é? 'Simone mon amour...' tudo mentira. Pára! Não pedi que você enxugasse minhas lágrimas. Sai, não quero que me beije! Gerard, não me segura assim... Gerard... Gerar... Fica Gerard, fica...
- Não dá mais, Simone. Acabou...
[O pianista dedilha de forma espaçada, mas forte, enquanto a voz doce e chorosa de mulher balbucia:
"Ne me quitte pas... Ne me quitte pas... Ne me quitte pas..."


DICA
FÉRIAS!
Vai viajar no período das férias escolares? É mesmo?! E já pensou no destino? Vem pro Ceará!
Além de Fortaleza, que dispensa comentários; temos, na orla, Jeriquaquara (paradisíaco aquele lugar); O Iguape; O Cumbuco; e a Praia da Lagoinha (Paraipaba), se vier ao Ceará, visite esse lugar, é de mais! fora um monte praia, que aqui é o que não falta. Saindo do litoral e indo pra os locais mais frios, temos Guaramiranga, que é serra, é pertinho (e peeense num lugar fantástico); na Cuesta da Ibiapaba, temos um Bondinho que vai dar em Grutas e cavernas moldadas pela natureza; entre outros destinos turísticos legais. Ah, a nossa programação cultural é massa também. Vem pra cá, além da excepcional qualidade nos serviços de hotelaria, as tarifas relacionadas a esses serviços aqui na Capital do Sol são, no momento, as mais baratas em todo o País, aproveita!
Então, fica ai a dica!
Um Cheiro.